
TDAH e Esclerose Tuberosa: O Cérebro Reage Diferente? Um Estudo com “Ondas Cerebrais”
O TDAH pode vir junto com outras condições, como a Esclerose Tuberosa (TSC). Será que o cérebro funciona igual? Veja o que um estudo com ondas cerebrais (ERPs) descobriu.
O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) afeta muitas crianças, e sabemos que ele pode se manifestar de formas diferentes em cada uma. Além disso, às vezes o TDAH não vem sozinho; ele pode estar associado a outras condições médicas ou neurológicas.
Uma dessas condições é a Esclerose Tuberosa (TSC). É uma doença genética rara que causa o crescimento de tumores benignos (hamartomas) em vários órgãos, incluindo o cérebro. Crianças com TSC têm um risco muito maior de ter TDAH – cerca de 10 vezes mais chance do que a população geral! E, na prática, muitos médicos percebem que o TDAH em crianças com TSC costuma ser mais intenso e, às vezes, responde menos aos tratamentos comuns, comparado ao TDAH que aparece “sozinho” (chamado de TDAH idiopático).
Isso levanta uma pergunta importante: será que o TDAH que acontece junto com a TSC tem uma causa ou um funcionamento cerebral diferente do TDAH idiopático? Entender isso pode ajudar a pensar em tratamentos mais específicos no futuro.
“Ouvindo” as Respostas do Cérebro: Os Potenciais Evocados (ERPs)
Uma forma de estudar como o cérebro processa informações e controla a atenção é através dos Potenciais Evocados Relacionados a Eventos (ERPs). Pense nisso como colocar eletrodos (sensores) na cabeça da pessoa para medir as “ondas elétricas” que o cérebro produz em resposta a estímulos específicos, como ouvir um som ou ver uma imagem. É como “ouvir” a reação elétrica do cérebro a um acontecimento.
Dois tipos de “ondas” (componentes do ERP) são especialmente interessantes para estudar a atenção e o TDAH:
- P300: É uma onda positiva que aparece cerca de 300 milissegundos depois que um estímulo importante ou inesperado acontece (por exemplo, um som diferente no meio de sons repetidos). Acredita-se que ela esteja ligada a processos como prestar atenção, perceber que algo mudou, atualizar a memória de trabalho e até controlar impulsos. A amplitude (o “tamanho” da onda) parece indicar quantos recursos de atenção o cérebro está usando naquele momento.
- Mismatch Negativity (MMN): É uma onda negativa que surge um pouco antes da P300 (entre 100-200 milissegundos) quando o cérebro detecta automaticamente uma mudança em um estímulo repetitivo (mesmo que a pessoa não esteja prestando atenção ativamente). Ela reflete a capacidade do cérebro de notar “o que é diferente” de forma pré-atenta.
O Que Já se Sabia Sobre ERPs e TDAH “Comum”?
Muitos estudos anteriores com crianças com TDAH idiopático (sem outra causa neurológica associada) encontraram um padrão:
- A onda P300 costuma ter uma amplitude menor (onda “mais fraca”) e uma latência maior (demora um pouco mais para aparecer) comparada a crianças sem TDAH. Isso foi interpretado como um sinal de dificuldade em direcionar e manter a atenção nos estímulos importantes. Alguns pesquisadores até sugeriram que a P300 poderia ser um “biomarcador” da gravidade dos sintomas.
- Para a MMN, os resultados eram mais variados, com alguns estudos mostrando diferenças e outros não.
A Nova Pesquisa: Comparando TDAH Idiopático vs. TDAH com Esclerose Tuberosa (TSC)
Pesquisadores na Itália resolveram investigar se esses padrões de ERPs seriam iguais em crianças com TDAH idiopático (vamos chamar de iADHD) e em crianças que tinham TDAH associado à Esclerose Tuberosa (vamos chamar de tscADHD). Eles compararam 3 grupos: 13 crianças com iADHD, 6 crianças com tscADHD e 14 crianças sem TDAH ou TSC (controles saudáveis – HC), todos na faixa etária de 7 a 17 anos.
Todas as crianças passaram por avaliações neuropsicológicas e pela gravação dos ERPs (MMN e P300) enquanto ouviam sequências de sons (um som comum e um som diferente/raro).
Resultados Surpreendentes: O P300 Reage Diferente!
Os resultados trouxeram algumas surpresas, principalmente em relação à onda P300:
- P300 no TDAH Idiopático (iADHD): Confirmando estudos anteriores, as crianças com iADHD tiveram uma amplitude da P300 significativamente MENOR do que as crianças do grupo controle. Parecia que o cérebro delas estava alocando menos “recursos de atenção” para processar o som diferente.
- P300 no TDAH com TSC (tscADHD): Aqui veio a surpresa! As crianças com tscADHD, apesar de terem sintomas de TDAH clinicamente significativos (e muitas vezes até mais intensos que o grupo iADHD, segundo a experiência clínica), NÃO mostraram essa redução na amplitude da P300. A amplitude da P300 delas foi semelhante à das crianças do grupo controle e significativamente maior que a do grupo iADHD.
- MMN (Detecção Automática): Em contraste com a P300, a onda MMN mostrou um padrão parecido nos dois grupos com TDAH (iADHD e tscADHD). Ambos tiveram uma MMN com amplitude maior e latência menor (apareceu mais rápido) em comparação com o grupo controle. Isso sugere que a capacidade automática do cérebro de detectar mudanças nos sons estava alterada de forma similar nos dois tipos de TDAH, talvez indicando uma maior “distratibilidade” por estímulos inesperados.
O Que Isso Pode Significar? O P300 é Realmente um Marcador de TDAH?
A grande questão que surge desses resultados é: se a P300 (ligada à atenção) está “normal” em crianças com tscADHD, mesmo elas tendo TDAH, será que a P300 é um bom marcador para a gravidade dos sintomas de TDAH em todos os casos?
A conclusão dos pesquisadores é que provavelmente não, especialmente quando o TDAH está associado a uma condição como a TSC. Por quê?
- A Esclerose Tuberosa causa alterações na estrutura e no funcionamento do cérebro (devido aos tumores benignos, chamados túberes). É possível que essas alterações da própria TSC afetem a forma como a onda P300 é gerada, independentemente dos processos de atenção ligados ao TDAH. Ou seja, o P300 pode não estar refletindo apenas a atenção naquele cérebro.
- Isso reforça a ideia de que o TDAH é heterogêneo. O TDAH que surge junto com a TSC pode ter mecanismos cerebrais parcialmente diferentes do TDAH idiopático, mesmo que os sintomas pareçam semelhantes.
- Portanto, usar a P300 como um “termômetro” da gravidade do TDAH pode não funcionar para crianças com TSC.
Limitações e Próximos Passos
Os próprios pesquisadores reconhecem que o estudo tem limitações, principalmente o número pequeno de crianças com tscADHD (porque TSC é uma doença rara). Além disso, as alterações cerebrais da TSC podem ter influenciado os resultados.
São necessários mais estudos para confirmar esses achados e entender melhor:
- Qual o papel exato das alterações cerebrais da TSC nos ERPs?
- Por que a MMN parece ser afetada de forma similar nos dois tipos de TDAH, enquanto a P300 difere?
- Existem outros marcadores biológicos que possam ser mais úteis para acompanhar o TDAH em diferentes contextos, como na TSC?
Conclusão: Um Olhar Mais Atento à Diversidade do TDAH
Este estudo, mesmo pequeno, traz uma mensagem importante: o TDAH não é uma coisa só. Quando ele aparece junto com outras condições neurológicas, como a Esclerose Tuberosa, o funcionamento cerebral pode ter particularidades.
Ferramentas como os ERPs (“ondas cerebrais”) são interessantes para pesquisar o cérebro, mas precisamos ter cautela ao interpretá-las como marcadores diretos da gravidade dos sintomas, especialmente em casos mais complexos. Entender essas diferenças é fundamental para, no futuro, buscar tratamentos cada vez mais personalizados para cada criança com TDAH, respeitando suas características individuais.
Quer conhecer mais sobre o mundo do TDAH, conheça o livro TDAH 2.0 adquira no link abaixo.
Saiba mais
Capa
Prepare-se para:
- Aceitar suas tendências únicas: Descubra como aproveitar os benefícios que o seu cérebro oferece, em vez de lutar contra ele!
- Encontrar o seu desafio ideal: Testes práticos para descobrir as atividades que te farão brilhar!
- Dominar a procrastinação: Descubra o poder do exercício físico e da meditação para turbinar seu foco e relaxamento.
- Fortalecer suas conexões: Aprenda como os laços afetivos podem aumentar sua autoestima e te ajudar a superar o estigma.
TDAH 2.0 é um guia inspirador e prático para minimizar os traços negativos e desbloquear o seu potencial máximo, em qualquer fase da vida.
Se o TDAH será uma vantagem ou uma maldição, a escolha é sua!
Descubra como transformar o seu TDAH em superpoder com TDAH 2.0!

Referências
Saiba mais
Autor: Lena De Hondt
Fonte: Frontiers
Pesquisa Original : Acesso aberto
“Quantification of ADHD medication in biological fluids of pregnant and breastfeeding women with liquid chromatography: a comprehensive review” Lena De Hondt et. al Frontiers
TDAH: O Que Aprendemos em 20 Anos…

Sou Jeferson Magno Amorim Manini, graduando em Psicologia e apaixonado por neurociência, pesquisa e conhecimento. Minha jornada acadêmica e profissional me levou a explorar profundamente o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), não apenas como um tema de estudo, mas como uma realidade que impacta milhões de pessoas.
Foi dessa paixão que nasceu o TDAH.World, um espaço criado para informar, apoiar e conectar pessoas com TDAH. Meu objetivo é traduzir informações complexas em conteúdos acessíveis, sem perder a profundidade científica, para que mais pessoas possam entender e lidar melhor com os desafios – e também as potencialidades – do TDAH.
Acredito que conhecimento bem aplicado pode transformar vidas, e é isso que me motiva a continuar estudando, escrevendo e compartilhando insights sobre neurociência, saúde mental e desempenho cognitivo. Se você chegou até aqui, espero que encontre neste espaço algo que faça sentido para você!